ASSIM É, SE LHE PARECE....


FICHA TÉCNICA:

Direção e coreografia: Valéria Pinheiro
Interprete criador: JP Lima
Musica Original: Luciana Costa
Iluminação: Walter Façanha
Programação visual e fotos: Jan Gauna
Figurinos e cenário: Valéria Pinheiro
Confecção da sandália: Lima Filho
Assessoria de imprensa: Cia. Vatá
Confecção dos adereços do cenário: Francisca Oliveira
Realização: Cia. Vatá

Release:

“O desequilíbrio nos movimentos desenha os traços da minha dança e o meu palco são todas as pessoas que me olham em qualquer lugar. Danço para eles quando tomo minhas muletas e ando, quando entro na piscina e nado, quando vou à festa e danço. Ali eu me exponho todo. Só eu não o vejo. Enxergo-me quando estou sozinho, no espelho do meu pensamento e memória, e me exponho no choro inevitável pelos olhares que suporto o dia inteiro e me “miopiam” de mim. Assim é e assim seja.”
JP Lima

A pesquisa

Como transformar esse turmilhão de sensações em nossa dança? Como ampliar o olhar, que agora perpassava sensações e habitava o nosso território em movimento? Ou terá sido o movimento quem trouxe já de pronto as sensações? Seguíamos experimentando e sentindo... As resistências que monopolizavam nosso território foram cedendo espaço a um entendimento melhor do que se propunha toda a experimentação exacerbada que vivíamos a cada semana.
O nosso olhar parecia não mais “míope”, começamos de fato a enxergar... Fizemos parcerias: um corpo feminino, depois um masculino pra ampliar a dança que nascia ali; uma visita a Fernando Pessoa, outra a Manoel de Barros; e até arriscamos tomar um chá com Clarisse Lispector. Estavam feitas as parcerias. Mesmo assim, não achávamos que estava ainda instaurada a dança que queríamos dançar.
Por fim, trouxemos a memória, consultamos o tempo, aproximamo-nos da Terra. Aí foi só brincar! Espirais desenhando o espaço, o corpo a experimentar o chão como que se pudesse dali, traçar desenhos que sublinhassem cicatrizes acalmando as marcas, transformando. E tudo isso pudesse ser regado com respeito através das diferenças..
“Todo o processo de Assim é se lhe parece foi completamente experimental. Eu, com pouca experiência de dança contemporânea e Valeria diante de um corpo- desafio que lhe trazia inúmeras possibilidades, até o momento, desconhecidas.
A oportunidade estava então diante de ambos, bastava somente uma ousadia e sede de reconhecer no corpo ou no não- corpo o labirinto de movimentos resguardos ali.
Em junho de 2007 começam os ensaios, neste momento menos ensaio, do ponto de vista técnico, e mais experimentação. Como se comporta esse corpo, quem é o JP quem é Valeria Pinheiro, etc., perguntas que se multiplicavam, as quais o corpo ia tomando para si e dizendo em movimento.
Paulatinamente as afinidades, os cafés tomados juntos, as músicas compartilhadas, os poemas recitados, foram se somando ao que um queria do outro. As emoções angustiantes, as declarações e as falas foram acumulando junto à memória algumas sensações conflitantes que nos foram amadurecendo e levando ao que se fez o espetáculo.
O que é o corpo se não o lado de fora de uma pessoa que existe no lado de dentro? Então, as perdas todas, ou pelo menos a memória das perdas me tiraram os motivos e a partituras de cada pedaço coreográfico. Cada espaço ocupado no cenário, cada tira de pano amarrada no corpo, cada cor, branca ou preta, visualizada pelo público, tudo foi por causalidade colocada em cena. O corpo inteiro está lá, por mais que seja visto na sua formal finitude física. A música comporta a nostalgia, a perda, a memória, a superação e tudo mais que do que o corpo sustenta e resolve contar. E assim o público verá que as coisas não são o que obviamente parece ser, mas o que cada um observa e interpreta pelo seu próprio olho- corpo.” JP Lima

Redesenhamos nossa dança! Então, vamos dançar!
Valéria Pinheiro

O processo

A cada passo dançado, desde o linóleo da primeira sala de aula de balé clássico, passando pelas primeiras experiências de palco, a dança constrói em mim um corpo e uma alma sólidos. Sem saber definir ainda muito bem o que era todo o processo de descoberta da dança em meu corpo, eu descobri a cada experimentação, uma possibilidade, uma ilimitação do meu corpo no momento quando ele decide dizer.
Acredito que todo início de pesquisa dentro da arte é carregado de instabilidades e sensações que nos vão enchendo de interrogações e buscas, que no mais das vezes nos instaura em uma atmosfera de angústia e realização.
Para mim como bailarino, o processo Assim é, se lhe parece, traz interrogações a mim mesmo: o quer dizer o meu corpo? Que sensações eu posso arrancar das pessoas ao verem meu corpo falando-dançando? O que o público sentirá ao perceber um vácuo físico, preenchido pelo não-movimento, o não-espaço, o não-objeto?
Alguma das verdades que descobri é que meu corpo quer falar, e ele falará de modo tão particular que cada ser humano que o presenciar e sentir perceberá como ele é, assim como lhe parecer, ainda que oscile em diferentes estados de espíritos nos quais possam esse indivíduos se encontrarem.
Nada, além da literatura, especificamente dos poemas, me despertava uma catarse tremendamente forte e purgadora. Foi então que a dança dita no meu corpo tomou a força da palavra e, ainda que não verbalizada repercutirá de alguma maneira em um espaço e em um tempo.
JP Lima
A música

Musicar os movimentos do corpo e da alma de um velho conhecido que descobriu na dança uma forma de externar suas falas, suas faltas, seus excessos. Aguçar o ouvido e a sensibilidade e perceber se ele quer que eu fale que eu cante que eu toque ou pare. Entender o tempo dele, sincronizar. É assim que me parece esse processo, o qual se deteve por meses na descoberta de um corpo e poucos dias para um encaixe musical.
Luciana Costa
Olhar jornalístico:

Existem dois discursos fáceis para a dança de JP. Um é o da pena. O outro, da superação. O que o público vai ver não está de um lado nem do outro. JP é protagonista de si e, portanto, não se permite atuar como coadjuvante na sua própria dança. Ele está ali para cavar espaços, descobrir "entres" e formas diversas de ocupá-lo. Para isso, instiga e explora o seu corpo. Busca nele o que grita para ser evidenciado mesmo ao custo de choro, sangue, suor e dor. Há muito ele já precisava dançar. Só não sabia quando, nem onde, nem quando isso aconteceria. Chegou a hora.
Ao aceitar o palco neste momento solo, o bailarino-intérprete-criador lança uma série de perguntas possivelmente ocultas, até então, aos interlocutores de cada noite. O que esse corpo pode alcançar? Que caminhos ele quer perseguir? Quais são as suas verdadeiras limitações? Ou, talvez mais importante, quais as nossas próprias limitações? Os movimentos de JP evidenciam o que gostaríamos de esconder e o que fingimos não ver em nós mesmos. Por isso, desconcertam e incomodam. Os papéis se misturam e, mais uma vez, a questão do espaço volta ao ar. Qual o meu lugar e qual o seu? De onde olhamos um para o outro?
JP responde às perguntas com o próprio corpo, seu laboratório pessoal de reflexões e inquietações. É esse pensar-se constante que faz com que, mesmo em meio a um vira e mexe emocional, JP encontre estabilidade num mundo instável e alcance virtuosidade até no movimento mais sutil. Se hoje ele joga perguntas, é porque enfrentá-las significou muito para si. Já era hora de compartilhar isso com mais de um alguém.
Amanda Queiros
Agradecimentos:

Elane Fonseca, Rafael Abreu, Cia. Vatá, Isabelle Ginot, Alexandre Harvt. Amanda Queiros, Tathiane Paiva, Maria Helena Cardoso, Marúcia Nery Benevides, Francisca Oliveira (mãe do JP), LaShonda Williams, Jan Gauna e todos os colegas da Universidade Federal do México que vêm de forma assídua contribuindo pra realização desse trabalho.

Serviço:

Centro Cultural do Banco do Nordeste dia 23 de março as 14h I
Inormações: (85) 3219-4939/88485649

A Cia Vatá (Companhia de Brincantes Valéria Pinheiro) é beneficiada pelo edital das Artes da Secultfor de manutenção de grupos de 2007/2008 e é residente do Café Teatro das Marias desde 2007.

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